quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love - EUA - 2010)

Sinopse: Mulher casada deseja ter uma vida diferente e abandona o marido para poder viajar pelo mundo.

Elenco: James Franco, Viola Davis, Javier Bardem (Felipe), Julia Roberts, Richard Jenkins

Direção: Ryan Murphy

Roteiro: Ryan Murphy,Elizabeth Gilbert

Nunca li ou tive vontade de ler o livro homônimo escrito pela americana Elizabeth Gilbert. Não por ser um livro de memórias “femininas”, mas porque simplesmente não me chamou atenção a história de uma mulher que tem uma crise de meia idade aos 30 anos e foge para países distantes para tentar se encontrar. Além disso, tive um retorno negativo de várias pessoas que leram o livro, dizendo que o mesmo era extremamente chato, salvando-se apenas a parte do “Amar”. E o filme não é muito diferente.

Dividido em três partes, como o próprio título diz, o filme não engrena até o seu terço final. Os dois primeiros “tópicos” são chatos, arrastados e estupidamente mal montados. A edição chega a irritar certas horas com cortes abruptos e sem sentido. Chega a causar confusão ao espectador. Já a terceira parte salva o filme do desastre total, já que nos apresenta um texto belíssimo, além das paisagens deslumbrantes de Bali. Aliás, mesmo que o filme não seja lá essas coisas, o seu texto é muito bom, com frases de efeito muito boas e que compõem bem o momento vivido por Julia Roberts, como, por exemplo, certa fala de James Franco: “Vamos viver uma vida infeliz e miserável juntos para, pelo menos, sermos felizes por estarmos perto um do outro.”. Esse tipo de incerteza é poético em algumas partes e confrontam a protagonista a todo o momento, o que mostra certo cuidado com um material tão focado em auto-ajuda. E material bom é o que parece não faltar. Pena que foi muito mal aproveitado.

Na primeira parte, “Comer”, a protagonista enfrenta a crise no casamento e tem seu primeiro contato com “Deus” em certo momento de desespero. Esse conflito é muito mal explorado e chato, culminando numa passagem completamente sem sentido pela Itália. Parece que essa primeira parte foi apenas para mostrar a grande Roma, com seus italianos gesticulares e suas ruas estreitas, além da sua culinária, claro. Nenhum personagem interessante é apresentado nessa primeira parte, exceto pela amiga de Liz, interpretada por Viola Davis, que é casada e acabou de ter um filho. É dela uma outra ótima frase do filme: “filho é como uma tatuagem no rosto. Tenha certeza de que você quer ter um.”. É nessa parte também que ela conhece seu primeiro namorado pós casamento vivido por um James Franco sorridente demais e com cara de drogado. Gosto muito de James Franco, mas esse seu personagem me lembrou muito sua caracterização em Segurando as Pontas com o Seth Rogen, ou seja, não encaixou no nível dramático necessário para o papel.

A segunda parte, “Rezar”, mostra o sacrifício de Liz em tentar encontrar o seu equilíbrio e se perdoar. Ato completamente dispensável e que não foi muito bem explicado. Qual a sua real motivação para ir para a Índia? Se aquele lugar era tão importante para seu ex-namorado, porque ir justamente pra lá? Ficou parecendo um desejo de uma menina mimada contrariando o seu pai autoritário e fugindo para os confins do universo. Nada de interessante acontece e nesse momento eu quis sair do cinema. A única coisa que realmente me chamou a atenção foi o relacionamento de Liz como texano Richard, vivido por Richard Jenkins, que, apesar de não ser um papel a altura de seu talento, prova em certa cena que é um grande ator. Nessa cena, ele conta a sua história de uma forma emocionante e extremamente bem atuada. Pena que é só nesse ato que é o pior dos três.

Já na parte “Amar”, a coisa fica diferente. Encontramos personagens interessantes, como o brasileiro Felipe, vivido por um Jarvier Bardem carismático, além da curandeira e sua filhinha (uma graça a menina) e o xamã que aparece no início do filme, mas que agora possui um papel maior e mais engraçado e tocante. Mas é Javier Bardem que rouba a cena, como o brasileiro Felipe e seu português macarrônico. O seu relacionamento com o filho é sensível demais e muito bonito. Além disso, vemos no rosto dele o desconforto de se aproximar de Liz, já que não faz isso há muito tempo. Um papel perfeito para ele. Uma coisa que reparei é a falta de tato em algumas cenas que poderiam ser mais exploradas, como, por exemplo, a cena da doação à curandeira e sua filha. Essa cena tinha tudo pra ser uma cena emocionante, uma cena para desabar qualquer um. Infelizmente fizeram algo tão raso e tão rápido que nem sentimos empatia por aquele gesto.

Agora quem carrega o filme nas costas é Julia Roberts. Julia sempre foi uma ótima atriz e, mesmo depois de um hiato de quase 7 anos desde seu último filme como protagonista, continua sendo. Sua Liz é um poço de incertezas e dúvidas e Julia consegue transmitir isso tudo com olhares e gestos simples. Nos momentos dramáticos, Julia é contida como sua personagem deveria ser, e vemos em seus olhos que ela está prestes a explodir. Uma atuação ótima, apesar do filme ser meia boca.

Apesar de 3 boas atuações, o filme não engrena justamente pelos dois terços iniciais. O mais engraçado é que você assiste e vê que existe material suficiente para se fazer um ótimo filme, um filme emocionante. Infelizmente Ryan Murphy, o diretor, não conseguiu captar o espírito do que o filme deveria ser. Um desperdício. Uma pena.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 (Brasil - 2010)

Sinopse: Vários anos depois dos acontecimentos do filme original, o agora coronel Nascimento tem um filho adolescente, fruto do casamento com Rosane, sua ex-esposa, que está casada com um deputado. Quando milícias formadas por PMs começam a extorquir moradores das favelas do Rio, constituindo uma máfia implacável, Nascimento se vê diante de um adversário com o qual não sabe lidar: os políticos.

Elenco: Maria Ribeiro (Rosane), Wagner Moura (Capitão Nascimento), Seu Jorge, Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Tainá Müller, Irandhir Santos, André Ramiro, André Mattos, Bruno D’Elia, Pedro Van Held, Sandro Rocha.

Direção: José Padilha

Roteiro: Bráulio Mantovani

Semana passada tentei, sem sucesso, assistir ao mais novo Blockbuster brasileiro. Fiquei frustrado com as filas gigantescas e falta de ingressos nos cinemas por vários dias seguidos. Pensei comigo mesmo “final de semana de estréia é complicado. Vou deixar pro póximo que vai estar mais tranqüilo.”. Ledo engano. Mais uma vez passei alguns minutos preciosos à frente do computador, lutando contra o site extremamente lento da Ingresso.com para tentar comprar meus preciosos ingressos. Tive que fazer umas 20 ligações para acertar os horários com o grupo que iria comigo. No final das contas, quase todos desistiram e ficamos apenas eu, minha digníssima Thais e a minha irmã Luciana. Felizmente posso dizer que valeu cada minuto perdido.

Tudo no filme é perfeito, por isso irei comentar separadamente tudo o que me chamou a atenção.

O design de som está impecável. Nunca antes num filme brasileiro o som foi tão bem mixado e realizado. Não estou falando só dos tiros, estou falando da ambientação da favela, da câmara dos deputados, das internas, de Bangu 1, tudo está perfeito, com vibração, com força. Ainda não descobri onde foi realizada a mixagem, se aqui ou nos EUA. Se foi aqui, chegamos ao nível de filmes americanos o que é invejável.

A direção de arte está ótima, com uma perfeita ambientação dos lugares onde se passa o filme. Tudo bem que temos muitas externas, mas mesmo assim, podemos ver claramente que tudo foi feito com muito cuidado, das roupas dos presos de Bangu 1 até o hospital fictício utilizado numa parte crucial do filme (a locação utilizada para esse hospital foi o prédio da Ampla em Niterói, que é perto da onde eu morava. Passei mais de uma semana dormindo com barulho de tiros e derrapagens).

A montagem do filme é divina. Daniel Rezende (montador do primeiro e indicado ao Oscar de melhor montagem por Cidade de Deus) reafirma sua capacidade de contruir um filme com perfeição, tornando-o fluente e crível. As intercalações entre a invasão de Bangu 1 e uma palestra de Fraga (personagem de Irandhir Santos) são de tirar o fôlego!

O roteiro de Bráulio Mantovani é de uma coragem sem precedentes. Ele critica a polícia e a política de uma forma surpreendente. Nunca esperaria isso de um filme a ser lançado próximo das eleições no país. Fora isso, os detalhes (o linguajar dos PMs e Milicianos são fantásticos), a construção dos personagens (o Fraga é um contraponto perfeito ao Nascimento), a forma como ele conseguiu fazer um filme totalmente novo e completamente diferente do primeiro, tudo isso é mérito dele. Não é a toa que o cara foi indicado ao Oscar por Cidade de Deus.

O elenco de apoio é sublime. Conseguimos ver com perfeição o que se tornaram alguns personagens do primeiro filme e nos surpreendemos com outros que mal apareciam. André Ramiro volta ao personagem Mathias com uma interpretação contida e ideal, transmitindo determinação a cada olhar. Se antes ele passava insegurança e um tom mais de paz, agora ele se tornou o Capitão Nascimento. E seu criador percebe isso no impulso da criatura no início do filme. Milhem Cortaz (Coronel Fábio) continua sendo o ponto cômico do filme, com sua fala rápida e recheada de palavrões. São dele os novos bordões que irão cair na boca do povo. Não há como não sair do cinema rindo de falas como “Pica das galáxias” ou mesmo “quer me foder, então me beija.”. Um outro personagem que aparece pouquíssimo no primeiro filme e que agora volta como um dos papéis principais é o Major Russo, interpretado por Sandro Rocha. Numa interpretação perfeita, Sandro consegue transformar o seu policial em um monstro sem limites. É bom ver que algumas pessoas, quando tem a oportunidade, podem surpreender, e foi o que aconteceu com Rocha. Fiquei impressionado com a atuação de André Mattos, como o político e apresentador de TV Fortunato. Como uma mistura de Vagner Montes e Dattena, ele mostra como a mídia pode influenciar nas decisões do governo e ainda mais na decisão do povo. Com uma atuação perfeita sem ser caricaturada demais (para o personagem é impossível não ser caricato, pelo menos um pouco), ele rouba a cena em diversos momentos do filme, deferindo frases de efeito como “Agora vamos dar bombons para a vagabundagem” entre outras extremamente inspiradas. Agora, quem rouba mesmo a cena é Irandhir Santos com o seu deputado Fraga. É impressionante como conseguimos simpatizar com seu personagem, com sua causa, com a sua vontade de fazer o certo, nas rixas com Nascimento (que deveria ser o herói da história). Um ator a ser descoberto. Muito bom mesmo. O único ponto fraco no elenco é o filho de Nascimento (o de 15 anos). Apesar de ter poucas falas no filme, o menino é fraco demais perto de monstros como Wagner Moura. E por falar nele...

Bom, não há Tropa de Elite sem Capitão Nascimento. E não há Capitão Nascimento sem Wagner Moura. Num país cheio de atores caricaturados que só sabem fazer novela, eis que surge esse baiano pra mostrar pro mundo como ser um camaleão. Sim, um camaleão. Ele consegue ser um comediante de mão cheia, consegue fazer papel de vilão em novela e consegue ser um oficial do BOPE, isso tudo sem se prender a um personagem, o que é um fato raro. O seu Coronel nascimento é perfeito. Os detalhes de sua interpretação são minimalistas e percebidos desde a conversa com o filho afastado (perceba como ele fica desconfortável em dizer algo carinhoso para o filho) até em cenas mais pesadas, como quando ele espanca determinado personagem (vemos ódio em seu rosto). Um personagem extremamente complexo e que caiu como uma luva nas mãos de um ator competente. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que Wagner Moura é o melhor ator do Brasil.

Mas nada disso seria possível sem uma mão forte no comando da produção. José Padilha, que já demonstrou competência sublime em Ônibus 174 e no primeiro Tropa, mostra o quanto sua técnica melhorou nesse segundo filme. Não só sua técnica, mas também suas escolhas. Escolhas até então controversas ainda mais de um filme produzido pela Globo, mas louváveis. As sequências de ação são perfeitamente conduzidas e bem superiores tecnicamente que as do primeiro filme. A cena do atentado então é muito boa e tensa, assim como a invasão de um personagem ao novo QG da milícia no bairro do Tanque em Jacarepaguá. Quase arranquei os braços da poltrona! A direção de atores é feita de forma competente, onde vemos, por várias vezes, a permissão do improviso, o que torna o filme mais crível. José Padilha, um dos melhores diretores brasileiros atualmente, conseguiu um feito incrível: fez uma continuação de um filme no Brasil (são pouquíssimos os casos) e ainda provou que se pode fazer um sequência infinitas vezes melhor que o seu original. Padilha ainda vai trazer o nosso primeiro Oscar, tenho certeza.

Por mais uma vez esse ano meu queixo foi ao chão no final de uma sessão de cinema. Um soco no estômago, como diriam alguns críticos. Foi isso que eu senti ao subir dos créditos desse Tropa de Elite 2. Me senti nauseado, enojado, puto. O turbilhão de pensamentos que tive ao final de “A Origem” voltou, mas foram pensamentos completamente diferentes, pensamentos de raiva, raiva da negligência, da minha negligência, da negligência do próximo e do pensamento “vou me dar bem” que permeia cada brasileiro. Como podemos viver numa sociedade assim? Como podemos aceitar e permanecermos passivos, acomodados em nossas casas, assistindo nossa TV a cabo, dentro de um quarto com ar-condicionado enquanto a podridão governa? Podridão que nós colocamos lá! Que nós, como cidadãos, aceitamos e elegemos! Com isso só posso concluir que somos burros, burros passivos e ignorantes. E agradeço ao José Padilha por me mostrar, com um soco no estômago, a gravidade dessa passividade.


Obs.: Há uma falha no filme bem boba. No início, o Fábio Fraga é candidato a deputado estadual, mas seu número possui apenas 4 dígitos, o que representa um deputado federal.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Deixa Ela Entrar (Suécia - 2008)

Sinopse: Oskar tem 12 anos e é um garoto ansioso e frágil, constantemente provocado pelos colegas de classe. Com a chegada de Eli, uma garota séria e pálida da mesma idade, que se muda para a vizinhança com o pai, Oskar ganha uma amiga. Quando a cidade começa a ser assombrada por uma série de assassinatos e desaparecimentos inexplicáveis, o menino, fascinado por histórias horripilantes, não demora a perceber que a amiga é vampira. Os dois acabam se apaixonando e a vampira lhe dá a coragem para lutar contra seus agressores.

Elenco: Kåre Hedebrant (Oskar), Lina Leandersson (Eli)

Direção: Tomas Alfredson

Roteiro: John Ajvide Lindqvist

Há algum tempo atrás li, em um site de cinema, que esse Deixa Ela Entrar estava fazendo certo sucesso na Europa e que era um terror extremamente eficiente e tocante. Eu não tinha entendido direito qual seria a associação dessas duas palavras, já que, pra mim, um filme de terror seria qualquer coisa, menos tocante. Foi então que, muito tempo depois, tive a oportunidade de assistir a esse filme sueco.

Sabemos do sofrimento de Oskar, o menino protagonista, na primeira cena do filme, onde ele “treina” um possível ataque aos seus agressores (ele sofre de bullying), mas também percebemos a sua fragilidade através do seu corpo franzino e a falta de coragem de realizar tais ataques, mesmo em um ambiente seguro como o seu quarto. Acho que por isso não estranhamos o rápido interesse dele na menina que acabara de se mudar para o apartamento ao lado, uma pessoa tão estranha quanto ele naquele mundo injusto. À princípio, a aproximação dos dois não teria nada demais. O problema todo é que Eli não é uma menina comum e, sim, um vampiro.

Um ponto positivo do filme é nunca confirmar isso. Apesar de vermos Eli se alimentando de sangue e atacando algumas vítimas, em momento algum sabemos o que realmente ela é. Inclusive, em certo momento do filme, o garoto Oskar pergunta a ela “O que você é?” e ela responde “Sou igual a você.”, o que remete ao fato da própria garota desconhecer a sua origem. O pai da garota parece desconhecer tal fato também e a alimenta apenas para seguir com seus deveres de pai, sem questionar em momento algum os seus atos. Aliás, a relação de pai e filha é maior do que o simples cuidar, já que, em outro momento do filme, o pai prefere “dar um jeito” a ameaçar a segurança da filha. O sentimento de pai, por horas, chega a se confundir, demonstrando o desequilíbrio desse homem quando, aparentando ciúmes, ele pede a Eli: “Não quero mais que você veja esse garoto.”.

Algumas outras “invencionices” são extremamente interessantes, como o impedimento da garota entrar sem ser convidada, as várias formas mais “velhas” em que a garota é mostrada (demonstrando a incerteza de sua real idade) e o final poético e extremamente violento. Aliás, é no final do filme que sabemos a real relação da garota com o pai e como o garoto é importante pra ela.

Contando com uma direção de arte e fotografia magníficas, Deixa Ela Entrar surpreende por ser um filme tocante, sensível e estranho. Um horror com sentimento. Algo impossível de se ver em Hollywood.