Sinopse: Mulher casada deseja ter uma vida diferente e abandona o marido para poder viajar pelo mundo.Elenco: James Franco, Viola Davis, Javier Bardem (Felipe), Julia Roberts, Richard Jenkins
Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Ryan Murphy,Elizabeth Gilbert
Nunca li ou tive vontade de ler o livro homônimo escrito pela americana Elizabeth Gilbert. Não por ser um livro de memórias “femininas”, mas porque simplesmente não me chamou atenção a história de uma mulher que tem uma crise de meia idade aos 30 anos e foge para países distantes para tentar se encontrar. Além disso, tive um retorno negativo de várias pessoas que leram o livro, dizendo que o mesmo era extremamente chato, salvando-se apenas a parte do “Amar”. E o filme não é muito diferente.
Dividido em três partes, como o próprio título diz, o filme não engrena até o seu terço final. Os dois primeiros “tópicos” são chatos, arrastados e estupidamente mal montados. A edição chega a irritar certas horas com cortes abruptos e sem sentido. Chega a causar confusão ao espectador. Já a terceira parte salva o filme do desastre total, já que nos apresenta um texto belíssimo, além das paisagens deslumbrantes de Bali. Aliás, mesmo que o filme não seja lá essas coisas, o seu texto é muito bom, com frases de efeito muito boas e que compõem bem o momento vivido por Julia Roberts, como, por exemplo, certa fala de James Franco: “Vamos viver uma vida infeliz e miserável juntos para, pelo menos, sermos felizes por estarmos perto um do outro.”. Esse tipo de incerteza é poético em algumas partes e confrontam a protagonista a todo o momento, o que mostra certo cuidado com um material tão focado em auto-ajuda. E material bom é o que parece não faltar. Pena que foi muito mal aproveitado.
Na primeira parte, “Comer”, a protagonista enfrenta a crise no casamento e tem seu primeiro contato com “Deus” em certo momento de desespero. Esse conflito é muito mal explorado e chato, culminando numa passagem completamente sem sentido pela Itália. Parece que essa primeira parte foi apenas para mostrar a grande Roma, com seus italianos gesticulares e suas ruas estreitas, além da sua culinária, claro. Nenhum personagem interessante é apresentado nessa primeira parte, exceto pela amiga de Liz, interpretada por Viola Davis, que é casada e acabou de ter um filho. É dela uma outra ótima frase do filme: “filho é como uma tatuagem no rosto. Tenha certeza de que você quer ter um.”. É nessa parte também que ela conhece seu primeiro namorado pós casamento vivido por um James Franco sorridente demais e com cara de drogado. Gosto muito de James Franco, mas esse seu personagem me lembrou muito sua caracterização em Segurando as Pontas com o Seth Rogen, ou seja, não encaixou no nível dramático necessário para o papel.
A segunda parte, “Rezar”, mostra o sacrifício de Liz em tentar encontrar o seu equilíbrio e se perdoar. Ato completamente dispensável e que não foi muito bem explicado. Qual a sua real motivação para ir para a Índia? Se aquele lugar era tão importante para seu ex-namorado, porque ir justamente pra lá? Ficou parecendo um desejo de uma menina mimada contrariando o seu pai autoritário e fugindo para os confins do universo. Nada de interessante acontece e nesse momento eu quis sair do cinema. A única coisa que realmente me chamou a atenção foi o relacionamento de Liz como texano Richard, vivido por Richard Jenkins, que, apesar de não ser um papel a altura de seu talento, prova em certa cena que é um grande ator. Nessa cena, ele conta a sua história de uma forma emocionante e extremamente bem atuada. Pena que é só nesse ato que é o pior dos três.
Já na parte “Amar”, a coisa fica diferente. Encontramos personagens interessantes, como o brasileiro Felipe, vivido por um Jarvier Bardem carismático, além da curandeira e sua filhinha (uma graça a menina) e o xamã que aparece no início do filme, mas que agora possui um papel maior e mais engraçado e tocante. Mas é Javier Bardem que rouba a cena, como o brasileiro Felipe e seu português macarrônico. O seu relacionamento com o filho é sensível demais e muito bonito. Além disso, vemos no rosto dele o desconforto de se aproximar de Liz, já que não faz isso há muito tempo. Um papel perfeito para ele. Uma coisa que reparei é a falta de tato em algumas cenas que poderiam ser mais exploradas, como, por exemplo, a cena da doação à curandeira e sua filha. Essa cena tinha tudo pra ser uma cena emocionante, uma cena para desabar qualquer um. Infelizmente fizeram algo tão raso e tão rápido que nem sentimos empatia por aquele gesto.
Agora quem carrega o filme nas costas é Julia Roberts. Julia sempre foi uma ótima atriz e, mesmo depois de um hiato de quase 7 anos desde seu último filme como protagonista, continua sendo. Sua Liz é um poço de incertezas e dúvidas e Julia consegue transmitir isso tudo com olhares e gestos simples. Nos momentos dramáticos, Julia é contida como sua personagem deveria ser, e vemos em seus olhos que ela está prestes a explodir. Uma atuação ótima, apesar do filme ser meia boca.
Apesar de 3 boas atuações, o filme não engrena justamente pelos dois terços iniciais. O mais engraçado é que você assiste e vê que existe material suficiente para se fazer um ótimo filme, um filme emocionante. Infelizmente Ryan Murphy, o diretor, não conseguiu captar o espírito do que o filme deveria ser. Um desperdício. Uma pena.






